O último Fiat Punto, lançado em 2005, teve uma trajetória fora do padrão: permaneceu à venda até 2018 (algo como duas gerações completas) e, ao longo do tempo, ficou bem atrasado em relação aos principais rivais.
Se a geração 199 do Punto tivesse seguido o ciclo normal do mercado, um modelo totalmente novo deveria ter sido apresentado em 2011 ou 2012 - mas isso simplesmente não aconteceu.
E, quando a Fiat finalmente tirou o Punto de linha no fim de 2018, o resultado foi um buraco na gama. Ninguém ocupou o lugar dele. A decisão soou ainda mais esquisita porque, historicamente, esse segmento sempre teve a Fiat como um de seus grandes nomes.
Então por que a Fiat nunca colocou um substituto direto no lugar do Punto? Não faltaram rumores - e também declarações de executivos da marca, sobretudo de Sergio Marchionne, o inesquecível (e já falecido) ex-CEO do antigo Grupo Fiat e, depois, do FCA Group.
O “não” de Marchionne
Só bem recentemente, porém, o motivo foi explicado de forma clara. Em 4 de julho de 2023, durante a apresentação internacional do Fiat 600 e do Topolino em Turim - evento em que estivemos presentes - Olivier François (CEO da Fiat) e Antonio Massacesi (diretor de novos produtos) detalharam por que esse sucessor nunca chegou.
Segundo Massacesi, ele próprio estava ligado ao projeto de um novo Punto: “Quase o fizemos. O ponto de paragem do projeto veio de Marchionne que estava cético em relação ao segmento B: demasiado competitivo e nada rentável.”
Para entender a fala, vale voltar cerca de uma década no tempo. A Europa ainda tentava se reerguer após a crise financeira global de alguns anos antes. Em 2012, a indústria automotiva tinha chegado ao fundo do poço: o mercado encolheu em cerca de quatro milhões de unidades por ano na comparação com o último período pré-crise.
A retração puxou uma guerra de preços, com descontos agressivos, corroendo a margem de lucro de muitos modelos. Nos segmentos de entrada, o efeito foi ainda mais duro. Nesse cenário, dá para compreender por que Marchionne hesitava em colocar dinheiro em um carro novo sem uma perspectiva clara de retorno.
Novo Punto ou 500 XL?
Para contornar o dilema entre preço e rentabilidade, Massacesi propôs uma saída: em vez de um sucessor tradicional do Fiat Punto, a ideia era criar, na prática, um Fiat 500 maior, com cinco portas e traços de crossover - e o sucesso de modelos como o primeiro Nissan Juke certamente influenciou essa direção.
Foi justamente essa proposta que François e Massacesi exibiram durante a apresentação, mostrando um esboço oficial datado de 2013.
“Propusemos um 500 maior e eles gostaram da ideia: mais aspiracional que um Punto ou um Ford Fiesta ou um Renault Clio, e com um preço muito melhor”.
Antonio Massacesi, diretor de novos produtos da Fiat
A cúpula da Fiat aprovou o conceito do então chamado 500+ (nome inicial do projeto). O desenvolvimento chegou a sair do papel, mas, como o próprio Massacesi explicou, foi interrompido poucos meses depois.
Mais adiante, o plano ainda seria reativado - não como um crossover, e sim como um carro convencional (mais na linha do Punto) - e, novamente, acabaria parando.
O fim definitivo
Houve idas e vindas, mas o problema central não mudava. Para viabilizar esse Fiat 500+, seria necessária uma plataforma nova; a Small usada pelo Punto (e também pelo Opel Corsa D e E) já era considerada ultrapassada em requisitos de segurança e emissões… e isso em 2013.
No fim, o que selou a morte do projeto do 500+ (o sucessor do Punto) foi o conjunto de custos de desenvolvimento somado à falta de uma marca parceira para dividir o investimento - o que elevaria sinergias e permitiria ganhos reais de escala.
Vale lembrar que a plataforma Small do Fiat Punto evoluiu para a maior Small Wide. Ela deu origem ao Fiat 500L em 2012 e, dois anos depois, aos Fiat 500X e Jeep Renegade. Ou seja: ficou grande demais para o território típico do Punto (carros com cerca de 4,0 m de comprimento e pouco mais de 1,7 m de largura).
Novo Fiat 600, o sucessor indireto
Mesmo tendo sido abandonada, a ideia de um “sucessor do Punto” mais próximo do 500 e com genes de crossover acabou servindo como ponto de partida para o novo Fiat 600.
Por enquanto, o novo modelo é oferecido apenas como elétrico e usa a plataforma e-CMP2 (uma evolução da CMP), estreada pelo Jeep Avenger. Agora, finalmente, as contas fecham - graças às sinergias e às economias de escala dentro da gigante Stellantis.
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