Microlino… não é aquele carro que levava um patinete no porta-malas?
Era essa a proposta inicial, sim. Em meados da década de 2010, o TopGear.com soube de um plano da Micro, a empresa suíça por trás do patinete dobrável original.
A avaliação deles era simples: carros urbanos - até mesmo Smarts e Toyota iQs - eram grandes, pesados e complexos sem necessidade. Na lógica da Micro, não fazia sentido exigir boa desenvoltura em autoestrada, nem pedir grande autonomia de um elétrico pensado para a cidade. Porque isso, no fim, anula a própria ideia de um carro urbano realmente competente.
Foi assim que começaram a desenvolver um carro de cidade “de verdade”. A referência veio do BMW Isetta, o microcarro bolha do fim dos anos 1950: o visual em formato de ovo, a única porta dianteira e a força indo apenas para as rodas traseiras. Sim, rodas - no plural - em vez de uma única roda atrás, como no conceito original.
E, sim, ele vinha com um patinete Micro no porta-malas. A justificativa era prática: em cidade grande, estacionar às vezes é um tormento. Então você deixaria o carro a cerca de 0,8 km do destino e faria o trecho final de patinete.
Tudo muito altruísta e esperto. E depois?
Aconteceu o que sempre acontece: economia, basicamente. A Micro queria vender o modelo original como um elétrico simples e acessível, para todos, por menos de €10.000. Só que os interessados pediam… aquilo que humanos costumam pedir. Mais luxo, mais autonomia, mais equipamentos. Mais de tudo. “Make it more of a car,” disseram. E, mérito da Micro, ela ouviu.
Então qual é a ficha técnica do carro final?
Depende da versão. A básica, chamada “Lite”, tem velocidade máxima de apenas 45 km/h e algo em torno de 93 km de autonomia, mas custa £17.000. Isso dá cerca de £1.000 a mais do que um Hyundai i10 de entrada - que é, de fato, um carro.
Por £18.000, é bem mais provável que você olhe para a versão central, a “Microlino”. Além de aquecedor, porta com fechamento suave, acabamentos cromados e modo Esporte (sim, sério), a velocidade máxima sobe para 90 km/h. Também dá para aumentar a autonomia: a bateria para 177 km custa £1.800, e a bateria para 227 km sai por mais £3.500.
É uma pena que pouca gente tenha abraçado o conceito inicial de mantê-lo o mais leve, simples e sem firulas possível, porque fica bem mais difícil defender o Microlino quando ele passa a custar mais do que um Dacia Sandero zero-quilômetro. Ainda assim, até no caso da Dacia, os britânicos compram mais as versões “melhores” do que as mais peladas. Sempre que alguém cria um carro barato, o mercado pede uma versão mais chique. E é por isso que o Microlino deixou de ser um carro do povo e virou mais um acessório de moda.
E como ele é, no dia a dia?
Diferente, divertido e não livre de defeitos - já chegamos neles. Até entrar no carro vira um acontecimento. Hoje, a porta única que ocupa toda a frente é liberada eletronicamente, e o modelo perdeu aquela alça grande que parecia a maçaneta de uma geladeira retrô.
Não sei se a graça de se esgueirar pela “boca” do carro - como se ele fosse o filhote de um cruzamento entre avião cargueiro e balsa - um dia cansa, mas, quando você entra, precisa fazer uma pequena pirueta e basicamente cair no banco. Ele é vendido apenas com volante à esquerda, por conta da dificuldade de reposicionar a coluna de direção fixa.
Por dentro, agora ele ficou mesmo luxuoso?
Dá para notar que o ambiente deixou de ser tão “lavável com pano” quanto no protótipo antigo. O banco tem costura acolchoada e corre para ajuste, embora a posição de dirigir continue teimando em ser “supercarro italiano dos anos 1980”: pernas bem abertas e braços esticados.
O encaixe dos acabamentos está melhor resolvido, mas tudo ainda transmite robustez. A tela que você precisa usar para abrir o porta-malas é lenta nas respostas, embora os instrumentos estejam mais claros agora. Ainda existe uma caixa de som Bluetooth interna para entretenimento portátil, e o suporte para smartphone deixa evidente de onde veio a inspiração.
E o desempenho?
Testámos o modelo de topo com bateria de 15 kWh e autonomia estendida, o que empurra o peso para o lado errado de 500 kg. Mesmo entregando apenas 16 hp, ele alcança 90 km/h, mas está longe de ser esperto. Ironicamente, um patinete elétrico daria conta dele com facilidade.
E ao volante, como se comporta?
Infelizmente, não é tão cativante quanto a aparência promete. Apesar de a bitola traseira ser mais larga do que o previsto no início, há uma imprecisão um pouco inquietante quando o Microlino entra numa curva, além de um tranco grosseiro no conjunto motriz ao aliviar o acelerador. A suspensão é seca ao passar por lombadas, o que não combina muito com um carro de cidade. Ou seja: não é algo que dá vontade de usar para percorrer grandes distâncias.
Isso levanta a dúvida: por que gastar para aumentar a autonomia? Você não vai longe com isto. Serve para ir à delicatessen, arrancar um sorriso, estacionar de frente na guia. Abrir o teto solar e recuar as janelas.
Como carro, ele é falho. Pense nele mais como um animal de estimação. Não é exatamente bem comportado dentro de casa, mas, de algum jeito, é difícil não gostar.
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