A segunda geração do Suzuki S-Cross desembarca no mercado português com uma missão ainda mais ingrata do que a do modelo anterior, apresentado em 2013.
O motivo é simples: além de o segmento ter se multiplicado em ofertas, essas opções também evoluíram sem parar - tanto em equipamentos quanto em dimensões.
Nesse cenário, o novo S-Cross acaba ocupando um lugar curioso. Isso porque a nova geração continua apoiada na mesma plataforma do antecessor, a ponto de manter, milimetricamente, as medidas do primeiro S-Cross.
Se há cerca de 10 anos seus 4,3 m de comprimento o colocavam alinhado aos C-SUV, hoje as proporções externas e o espaço interno o aproximam mais do segmento imediatamente abaixo, o dos B-SUV - que também cresceu bastante e onde a própria Suzuki já oferece o Vitara.
Vivendo, portanto, como que entre duas categorias, fomos conferir quais são os trunfos da segunda geração do S-Cross que, por enquanto, é vendida apenas com motor a gasolina turbo e sistema mild-hybrid, mas tem tração integral - um recurso pouco comum nessa faixa do mercado.
Econômico, mas não só
Começo justamente pelo conjunto mecânico, já conhecido do S-Cross anterior e também do Vitara e… do Swift Sport. O 1.4 turbo mild-hybrid 48 V, aqui combinado a um câmbio manual de seis marchas, não decepciona quando aplicado ao crossover japonês.
Com 129 cv às 5500 rpm e 235 Nm entre as 2000 rpm e 3000 rpm, valores aos quais ainda podem se somar 10 kW (14 cv) do motor-gerador elétrico, no papel ele pode não ser o «rei das fichas técnicas», mas no uso real se mostrou bem compatível com a proposta do S-Cross.
Ele ganha velocidade com boa disposição, e as retomadas deixam claro não apenas a elasticidade do motor, como também o acerto do escalonamento do câmbio manual.
Falando no câmbio, ele não «esconde» a origem japonesa: o engate tem um tato mecânico e agradável. Não chega ao nível do que a Mazda costuma oferecer, mas conquista um petrolhead com mais facilidade do que, por exemplo, alguns câmbios manuais de origem europeia.
A entrega do motor em diferentes faixas de rotação e a ajuda do sistema mild-hybrid aparecem também no consumo.
Durante este teste, foi fácil registrar médias entre 5,5 l /100 km e 6,0 l/100 km. E mesmo quando «puxei» mais pelo K14D, os números não passaram de 6,5 l/100 km a 7,0 l/100 km.
No comportamento dinâmico, o S-Cross se mostrou particularmente ágil, dando até a impressão de ser mais leve do que os 1360 kg (EU) declarados - ele não parece tão «pesado» quanto outras alternativas C-SUV ou até B-SUV.
A suspensão equilibra bem as demandas familiares com um comportamento em curva que é preciso e previsível. É uma pena, porém, que a direção, apesar de rápida e direta, filtre informação demais.
Aventureiro na medida certa
A Suzuki tem uma longa tradição no fora de estrada e, como este Suzuki S-Cross vem equipado com tração integral, não havia como deixar de colocá-lo à prova longe do asfalto.
Na prática, a marca japonesa segue sem deixar «créditos por mãos alheias», e o S-Cross foi bem mais longe do que eu esperava inicialmente.
O sistema de tração integral transfere torque entre os eixos com rapidez, lida bem com piso escorregadio e nem os cruzamentos de eixos «assustam» o S-Cross.
Aqui, a minha única ressalva é a baixa altura do solo do modelo da Suzuki, que limita aventuras mais ousadas. Com mais alguns centímetros de altura livre e melhores ângulos característicos, o S-Cross poderia até se firmar, nesse aspecto, como alternativa ao Dacia Duster para quem não abre mão - ou precisa - rodar fora de estrada.
Soluções já conhecidas
Se no conjunto mecânico e na dinâmica o Suzuki S-Cross constrói um bom argumento a seu favor, o mesmo não se repete com a mesma força na cabine.
Não há problema no desenho mais conservador, mas algumas escolhas deixam claro que as bases desta segunda geração são mais antigas do que seria de esperar. Em compensação, apostar em soluções já validadas ajuda (e muito) na usabilidade.
Um exemplo é a opção de posicionar a tela central acima das saídas de ventilação, solução vista em várias marcas. Ergonomicamente, é uma decisão acertada - ainda que nem sempre ajude no visual -, pois deixa a tela mais alinhada ao campo de visão e mais próxima da mão.
No quesito materiais, porém, o S-Cross fica devendo, até considerando a categoria em que se encaixa: há bastante plástico rígido. A montagem, por sua vez, não dá margem a críticas relevantes, mas ainda existe espaço para evoluir em certos acabamentos.
Por fim, em termos de espaço interno, as dimensões preservadas do novo S-Cross «fazem-se sentir», com medidas internas mais próximas das de um B-SUV do que das de um C-SUV.
Ainda assim, o espaço a bordo atende uma família jovem, e os 430 l do porta-malas dão conta da maioria das necessidades do dia a dia.
Apesar disso, a sensação na cabine da proposta japonesa é a de haver menos espaço do que em um Renault Captur ou até em um Skoda Kamiq, cujos porta-malas oferecem, respectivamente, até 536 l no caso do francês e 400 l no caso do modelo tcheco.
É o carro certo para você?
Logo no início eu disse que o Suzuki S-Cross tinha uma tarefa difícil pela frente e, depois de conviver com ele por alguns dias, não acredito que a «vida facilitada» esteja garantida.
A favor dele jogam a agilidade acima da média, uma lista de equipamentos muito boa (a S3 é a versão mais completa), um motor econômico e o fato de, nesta configuração, trazer tração integral - ele também é oferecido com tração dianteira -, algo bem raro entre os potenciais rivais.
Por outro lado, a decisão de manter a base do antecessor aparece nas entrelinhas. O espaço interno fica mais distante das referências atuais e, hoje, há B-SUV com cabine mais generosa. A percepção de qualidade do interior também termina atrás da concorrência.
E o preço de 32 470 euros, no caso da unidade testada, acaba ficando acima do esperado, mesmo levando em conta a lista de equipamentos e a tração integral. A versão com duas rodas motrizes custa apenas 630 euros a menos.
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