Para encontrar o começo da linhagem R (Racing) na Volkswagen, é preciso voltar a 2002. De lá para cá, mais de 200 mil carros com a letra R já foram entregues. Só que o foco aqui é justamente o pioneiro - e, muito provavelmente, o mais cobiçado de todos: o Volkswagen Golf R32 (IV).
O R32 mudou a forma como se via o Golf. Vale dizer: naquele período, os Golf GTI estavam em baixa. Se o primeiro Golf GTI, lançado em 1976, foi decisivo para popularizar os hot hatch, na geração Golf IV a famosa sigla tinha virado praticamente um pacote de equipamentos.
Na prática, os GTI quase não se distinguiam dos outros Golf e decepcionavam justamente onde haviam construído sua fama: desempenho e dinâmica. A recuperação do emblema GTI só viria na 5ª geração; antes disso, foi o Golf IV R32 que recolocou o modelo no radar dos entusiastas.
Assim, o Volkswagen Golf R32 apareceu como um verdadeiro choque. Apesar do salto enorme em aspectos como qualidade percebida, o Golf IV não era exatamente a escolha de quem queria sentir emoção ao volante - até a chegada do R32.
O Golf R32
Por fora, a mudança era contida, mas eficaz: os para-choques dianteiros ficaram mais encorpados e com entradas de ar maiores; na traseira, surgia espaço para duas saídas de escape; as saias laterais eram inéditas; e as rodas passavam a 18″ (com pneus 225/40), preenchendo melhor os arcos generosos. Para reforçar a postura, a altura em relação ao solo diminuía 20 mm. Finalizando o conjunto, apareciam discretos emblemas R32.
Nada chamativo - o inverso de um Civic Type R -, com muita elegância e um desenho que envelhece bem. Não por acaso, o Golf IV ainda é lembrado, com justiça, como o Golf de linhas mais bem resolvidas.
O que realmente diferenciava o carro, porém, estava escondido sob a carroceria. Debaixo do capô, havia uma nova variação do conhecido VR6 - motor presente nos Golf desde a 3ª geração -, agora com 3.2 l, o que explica a designação alfanumérica R32. Ele trazia cabeçote multiválvulas, com quatro válvulas por cilindro, somando 24 válvulas.
A potência era de 241 cv - um número bem alto para um hot hatch da época -, acompanhada de 320 Nm. Essa força era enviada às quatro rodas (sistema Haldex AWD) por meio de um câmbio manual de seis marchas ou, opcionalmente, uma transmissão de dupla embreagem. Com isso, tornou-se o primeiro carro de produção a oferecer essa alternativa - chegando, por pouco, antes do Audi TT 3.2 quattro, com quem dividia motor e grande parte do chassi.
Mesmo nos dias atuais, os números ainda impressionam: ele faz 100 km/h em menos de 7s e alcança 247 km/h de velocidade máxima, independentemente do tipo de transmissão.
Comportamento, a surpresa
Foi na dinâmica, contudo, que o Golf R32 realmente virou o jogo. Para estar à altura da mecânica, o chassi evoluiu: a traseira adotou suspensão independente multi-link (de série apenas nos Golf 4Motion), deixando de lado o eixo traseiro semi-rígido.
Em teoria, o peso elevado poderia ser um problema. O VR6, pesado, ficava pendurado na dianteira e o R32 chegava a quase 1500 kg (sem motorista) - um Volkswagen Golf R atual consegue ser algumas dezenas de quilos mais leve. Só que as avaliações da época mostravam um cenário diferente.
Ali estava um Golf como não se via fazia muito tempo: além de o VR6 ser vigoroso e prazeroso de explorar, com uma sonoridade marcante, o conjunto do chassi tinha competência para acompanhá-lo. A direção era precisa e o carro permitia ajustar a trajetória conforme a pressão no pedal da direita, com o Haldex tendo papel decisivo para evitar o subesterço. Apesar da massa, o Volkswagen Golf R32 se mostrava ágil, surpreendendo até os mais céticos.
Legado
O Volkswagen Golf R32 IV foi um divisor de águas - e também um acerto comercial. Tirou o Golf da fase de mediocridade dinâmica em que havia entrado e definiu um novo patamar de desempenho. E deu certo porque, embora tenha sido pensado como uma série limitada de 5000 unidades, no fim cerca de 12 mil foram fabricadas, com os EUA tendo peso decisivo no resultado ao absorverem mais de 40% da produção.
Os modelos seguintes mantiveram a receita: o VR6 resistiria por mais uma geração, até o 2.0 TSI assumir o posto a partir do Golf VI. E, mesmo hoje, apesar da falta de uma motorização mais “nobre”, muitos ainda consideram os Golf R como os melhores Golf.
- Sobre o “Glórias do Passado”. Esta é a seção da Razão Automóvel dedicada a modelos e versões que, de alguma forma, se destacaram. Gostamos de relembrar as máquinas que, em outros tempos, nos fizeram sonhar. Embarque com a gente nesta viagem no tempo aqui na Razão Automóvel.
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